No brasil, o futebol é um
fenômeno cultural e não se resume apenas
as quatros linhas do campos de jogos, ritualizando questões simbólicas da nossa
sociedade, envolvendo estudos nos mais diferentes aspectos, como relações de
raça, gênero e Classe social. Segundo Roberto de Matta , o futebol no
Brasil é uma espécie de ‘’drama da vida social’’ onde entram em cena questões
hierárquicas da sociedade brasileira, assim como em outros momentos igualmente
ritualizados, como o carnaval e as
religiões. Estes três ele elementos têm sido objeto de propriações
ideológicas diversas, compondo uma ‘’identidade nacional’’, na qual o futebol
desempenha um importante papel, como principal aglutinador do ‘’ povo
brasileiro’’ na sua constituição como nação.
A midiatização de eventos
esportivos é responsável por sucessivos fenômenos de audiência. A audiência
global da final da Copa do Mundo de 2002, por exemplo, foi estimada em mais de
um bilhão de pessoas. No Brasil, a audiência média de jogos da seleção
brasileira em Copas do Mundo supera largamente os 100 milhões de espectadores
mesmo em um jogo que ocorreu ás 3 horas
da madrugada, como Brasil x Inglaterra em 2002. Porém a transmissão de um jogo
de futebol pela televisão anula a experiência de estar no estádio com um
radinho de pilha ao ouvido. As diferentes câmeras acompanham as jogadas
enquanto a voz do locutor define o que está acontecendo. É evidente que as duas
experiências são diferentes: No estádio o torcedor experimenta o compartilhar
de um mesmo evento com milhares de outras pessoas, causando interação entre essas
pessoas , enquanto em sua casa assistindo pela televisão, tal fenômeno social
coletivo praticamente não ocorre, salvo em circunstâncias muito especiais, como
no momento de um gol importante , por exemplo.
Embora a mítica do ‘’país do
futebol’’ seja resultado de um processo histórico e social que tem pouco mais
de 50 anos , este esporte é hoje um dos principais emblemas da identidade brasileira, juntamente com o samba
e as religiões. Ao futebol jogado no Brasil são atribuídas características
constituintes do que seria uma identidade brasileira, como a conduta conhecida
como malandragem. Estando historicamente datados do início do processo de
industrialização da sociedade brasileira, nos anos 30 e 40, os tempos da
malandragem constituem uma espécie de passado mítico da cultura brasileira,
sendo a figura do malandro uma espécie de herói popular brasileiro. Oliven
considera a disciplina (e da exploração)
do trabalho assalariado. Embora o contexto histórico e social contemporâneo
tenha relegado o malandro (de navalha , terno branco e lenço de seda no
pescoço) ao passado, sua figura emblemática continua presente no imaginário da
sociedade brasileira. Um dos campos onde a malandragem é vista essencialmente como
um valor no Brasil é justamente o campo de futebol, palco de ritualizações de
diversos elementos da cultura brasileira.
O jogo de futebol, considerando,
a partir das consequência da midiatização dos fatos esportivos, a sua dimensão
de fato social produzindo e reproduzindo imaginários simbólicos na sociedade
brasileira, bem como a dimensão interacional de sociabilidade masculina
promovida pelo acesso compartilhado ao futebol midiatizado. Em primeiro lugar,
é importante destacar que o futebol no Brasil é um fato social de extrema
importância simbólica, e está ligado à sua midiatização, à sua condição de
produto midiático , o que condiciona sua veiculação às regras do campo das
mídias. Pensando o futebol como produto midiático, o consumo social deste produto
está relacionado a uma dimensão de sociabilidade, de compartilhamento da recepção
entre pares, sejam parceiros ou adversários. E que nesta sociabilidade se
negociam apropriações culturais dos fatos do jogo pelos torcedores. Por fim, eu
destacaria o uso cotidiano da tematização do futebol como motivo de sociabilidade masculina no Brasil.
Acredito que investigando mais profundamente esta relação possamos ter acesso à
cultura brasileira por um outro ponto de vista, a cultura do mundo da vida em
sua dimensão comunicacional cotidiana, a cultura que vivemos.
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